24/09/2014

Não haverá maior paradoxo na história do cristianismo que o de Maria - Professor Luiz Marques

Muitos tem adotado uma fé idólatra e não tem percebido. Aqui temos um testemunho secular do erro católico. Veja abaixo a matéria veiculada na Revista Veja de 25/12/1996:



“Não haverá maior paradoxo na história do cristianismo que o de Maria, pois a mais eminente figura do culto cristão, depois do próprio Cristo, é na realidade a mais obscura personagem do Novo Testamento. A mãe de Cristo não é, de fato, uma figura central no cristianismo dos primeiros séculos. O evangelho segundo João limita-se a uma vaga referência sobre a 'mãe de Jesus' e o de Marcos cita-a apenas uma vez.

Na realidade, é somente por volta do século V que se cristalizam a sua lenda e seu culto, para o triunfo dos quais foi antes necessário extirpar a ferro e fogo uma encarnecida oposição às suas prerrogativas de protagonista do ministério da encarnação, movida por setores poderosos da igreja, em seguida declarados heréticos. No que se refere ao culto, a idéia de que Maria fosse mãe de Deus suscita resistência de diversos tipos, mesmo depois da polêmica proclamação do dogma no Concílio de Éfeso, em 431.

Resistências que remontavam a uma misoginia profundamente arraigada no ascetismo oriental e na Igreja primitiva para as quais a mulher, herdeira de Eva, permaneceria inapelavelmente a “Lira de Satã”. Há ainda resistência mais compreensíveis: como desenvolver o culto de uma figura quase eclipsada no testemunho dos apóstolos? Como cultuar uma figura que nem sempre parece convencida da natureza divina de seus filhos, o qual, por sua vez, parece recusá-la em uma de suas mais desconcertantes respostas: 'Quem é minha mãe?' (Mt XII:48). Como cultuar, enfim, uma Maria que tinha de início tão pouco a oferecer à veneração popular? Pois, ao contrário de tantos apóstolos, ela não se cingira da auréola de mártir, não realizara milagres algum e não deixava, enfim, nenhuma relíquia de si, três elementos essenciais do culto primitivo dos santos.

Foi assim necessária a intervenção de dois fatores pra que a Virgem conquistasse a posição que viria a desfrutar já desde a plena Idade Média. O primeiro fator diz respeito à sobrevivência do paganismo nos cultos populares, isto é, a herança que Maria recebe das divindades femininas das antigas religiões mediterrâneas. Até o século V, e mesmo ainda mais tarde, altares consagrados a Cibele, uma deusa oriental introduzida no panteão romano, são tranquilamente convertidos em altares a Maria, sobretudo entre os camponeses mais ligados aos cultos de fertilidade. Na verdade, Maria tende a substituir diversas deusas geradoras de cosmos, de víveres e mesmo de deuses, como a egípcia Isis, a síria Astarte e demais divindades gregas ou suas equivalentes romanas.

Ao contrário de constituir um sério empecilho para o enriquecimento da lenda de Maria, o quase silêncio dos evangelhos a seu respeito funciona como um fermento. Para além da incessante imaginação popular, sucedem-se diversas fontes literárias, todas tardias... o Protoevangelho de Tiago, a Ascensão de Isaías, o Pseudo-Mateus... a genealogia de Maria, as histórias de Joaquim e Ana.. é dessa colcha de retalhos em que se combinam os textos autorizados apócrifos as heranças mitológicas pagãs, as mais íntimas contaminações com a divindade, as 'migrações dos símbolos'.”

Luiz Marques
Professor de História da Arte da Unicamp (Universidade de Campinas)
Curador Chefe do Museu de Artes de São Paulo - MASP
Revista Veja de 25/12/1996

Biografia de Luiz Marques: http://pt.wikipedia.org/wiki/Luiz_Marques

Fonte da notícia: vídeo abaixo à partir de 30 minutos e 20 segundos.

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